Em um litoral onde o concreto avançou sem freios, uma lei inventada na hora — por um homem saindo do mar com um parêo na cintura — mudou para sempre o destino de Búzios.
Otavinho, o Arquiteto que Virou Guardião de Búzios
Octavio Raja Gabaglia chegou a Búzios pela primeira vez aos 5 anos, levado pelos pais. Voltou adulto, se apaixonou e nunca mais saiu. Em 1968, mudou-se definitivamente para a então vila de pescadores e passou a assinar projetos que hoje são a alma da cidade — a Rua das Pedras, a Praça dos Ossos, o Aeroporto de Cabo Frio.
Mas o legado mais duradouro de Otavinho não está em nenhuma obra específica. Está em uma lei que ele inventou nu, saindo do mar.
A Epifania na Praia da Armação
Era início dos anos 1970. Otavinho nadava na Praia da Armação — como era seu hábito — quando avistou algo que o fez sair da água imediatamente: uma obra avançando para o terceiro pavimento. Uma construção sem alma, com telhas de fibrocimento, paredes copiadas de algum catálogo genérico de cidade grande.
O problema era que não existia nenhuma lei que proibisse aquilo.
Mas Otavinho não esperou pela lei. Cobriu-se com um parêo, caminhou até a obra e declarou que a construção estava irregular. Usou um formulário do CREA como instrumento moral. Aplicou uma multa fictícia. E naquele momento inventou, ali mesmo, os parâmetros que só anos depois seriam oficializados:
“Em Búzios, toda construção com telha canal ou cerâmica pode chegar a 7 metros e 50. Se for laje, só até 7,20.”
Convenceu o proprietário. Não pelo poder da lei — que ainda não existia — mas pelo poder da ideia.
Anos depois, testou o prefeito de Cabo Frio com uma história fictícia: um investidor querendo construir um condomínio de 50 andares em Búzios, que chamou ironicamente de “Ângela Diniz”. O prefeito reagiu indignado: “Existe lei de 7,50 m com telha!” A lei ainda não existia — mas o prefeito a enunciou como se existisse. Era o desejo coletivo de uma cidade que já sabia, no fundo, o que queria ser.
A Lei que Deu Nome a um Estilo
O que nasceu de um parêo e um formulário do CREA virou a Lei Raja Gabaglia — aprovada ainda quando Búzios era distrito de Cabo Frio. Depois veio o Plano Diretor de 2009, considerado pelo Ministério das Cidades um dos melhores do Brasil. E em 2024 o legado ganhou mais uma camada, com o tombamento oficial de igrejas históricas, da Rua das Pedras e de casas do período baleeiro do século XVIII.
O resultado é visível a olho nu: Búzios ainda respira como uma vila de pescadores. Telhados inclinados em telha cerâmica, pilares de madeira aparente, beirais generosos, casas que não concorrem com a paisagem — elas fazem parte dela.
Quando você chega em Búzios e sente os olhos relaxarem sem saber explicar por quê, é esse conjunto de decisões agindo sobre você. O movimento dos telhados, o vento passando pelas janelas, a escala que te abraça.
“Eu sabia que a cidade ia subir, por isso fiquei em dois andares. Acho que não errei.” — Octavio Raja Gabaglia
O que Isso Tem a Ver com Viver em Búzios
Cidades que preservaram sua identidade atraem um tipo específico de pessoa — e de investidor. Alguém que não quer mais do mesmo. Que escolhe Búzios exatamente porque ela não virou qualquer outra cidade do litoral.
A legislação de Búzios não limita o que você pode construir. Ela protege o que faz o lugar valer.
Empreendimentos como o Aretê Búzios foram concebidos dentro dessa filosofia — casas arejadas, integradas à paisagem, com os materiais e a escala do estilo buziano, sem abrir mão do conforto contemporâneo. Projetadas para quem entende que morar bem em Búzios é, antes de tudo, respeitar o que faz Búzios ser Búzios.
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